Ela passa pelo Brasil e também fora dele. Desde de 2009 quando conheci a agricultura orgânica e me apaixonei. A busca por esse universo começou por conta do meu trabalho, que tinha relação com pessoas em situações de doenças. Trabalhei vários anos em uma empresa familiar no segmento de produtos médicos hospitalares. Eu conheci de perto o sistema de saúde, público e privado, e também conheci a realidade das pessoas que querem recuperar sua saúde, e o grande desafio, desde a fase do diagnóstico, até o tratamento. Vi casos muito graves, em cidades sem estrutura, e em famílias sem informação e sem recursos. Sempre me chamou a atenção a importância da atenção e do cuidado, do carinho, da gentileza e do amor. Em muitas situações esses “ingredientes” eram mais fortes que os medicamentos. Tem um valor enorme o cuidado e amor em nossas vidas.

Não me animava ver uma crescente de pessoas adoecendo. Sempre fiquei com a pergunta sobre como buscar e cuidar da saúde, e também sobre como o nosso estilo de vida estava influenciando o aumento das doenças. Percebi que cada vez mais fomos nos distanciando da natureza e que a nossa vida migrou para um ambiente tecnológico, duro e acelerado. Perdemos a calma, as cores, a alegria, os ritmos, e a sabedoria natural que a natureza nos traz.

 

Essa procura por significado e sentido me levou a conhecer um sitio em Joaquim Egídio, distrito de Campinas. Do que já foi floresta, permaneceu um pasto com solo bem degradado. E nesse local aconteceu a minha experiência com a agricultura orgânica e biodinâmica. O cultivo orgânico foi uma escola, tanto para compreender a dinâmica com a terra, mas também as relações e parcerias. O sitio se tornou uma escola viva. Começamos a oferecer cursos de educação ambiental e práticas de manejo e cultivo. Observei que nesse espaço, a alegria e vitalidade sempre estavam presentes, as pessoas se abriam para descobertas e experimentações e saiam de lá muito diferentes de quando chegavam. Isso me confirmou a importância de fazermos as pazes com a natureza. Somos partes dela.

A decisão de fazer cosméticos naturais e orgânicos tem relação com essa experiência e com a imagem do cuidado. As pessoas procuram cuidar do corpo de diversas formas e com isso podem criar relações com a natureza, já que ela nos oferece uma diversidade imensa de recursos. A ideia de desenvolver cosméticos 100% naturais e trazer junto com a marca esse universo natural me inspirou profundamente.

Dizem que a riqueza está na caminhada…

No processo de desenvolvimento que começou em 2011, conhecemos as matérias-primas brasileiras, de diferentes biomas. Descobrimos que pouco conhecíamos das nossas riquezas naturais, e também o quanto é importante preservar os conhecimentos tradicionais. A marca nasceu com esse propósito de promover esses “Encontros que Transformam”, e também do compromisso de respeitar e valorizar a cadeia produtiva.

A primeira fase foi a pesquisa de fornecedores e isso nos colocou em contato com a beleza da biodiversidade brasileira, mas também com vários desafios pois a grande indústria utiliza poucas matérias-primas naturais, e dá prioridade para os ingredientes sintéticos. A consequência disso, é que não temos cadeias de fornecimento desenvolvidas. Por essa situação, o conhecimento tradicional é perdido e deixamos de aproveitar muito do que a natureza oferece. Outro aspecto importante foi conhecer as certificações e os parâmetros para desenvolver as fórmulas. Cada certificadora tem um critério e é mais ou menos flexível na liberação de uso de ingredientes. Isso nos deu segurança para fazer as escolhas e também o padrão que gostaríamos de alcançar. Nos deparamos com um cenário desanimador há 8 anos atrás.

Ouvíamos constantemente a frase: “Porque vocês não fazem o que o mercado consome? É mais fácil e o retorno é muito mais mais rápido”. Em uma das visitas em uma comunidade de produtores no Norte do Brasil, fomos surpreendidos por ser a primeira empresa brasileira a visitá-los. Até então, eles só haviam recebido pessoas de outros países. Esse acontecimento reforçou para nós que realmente perdemos o contato e não sabemos a origem dos produtos que consumimos. Com isso, muitas comunidades deixam de existir, produtos deixam de ser produzidos, famílias abandonam o campo em busca de fazer parte desse novo mundo urbano. Aprendemos a viver com facilidades e com grande oferta de produtos, muitos lançamentos e novidades, mas não sabemos o caminho que eles percorrem e as histórias que carregam.

Slow Food

Inspira-me o pensamento do Carlo Petrini, fundador do Slow Food, que diz que somos Co- Produtores, e que comer é  um ato político. Nesse ato de consumir e de fazer escolhas, criamos o nosso mundo, podemos movimentar cadeias  distintas a cada dia

Além das pesquisas no Brasil, achei importante conhecer o que outros países estavam fazendo, e descobri que a Alemanha era referência em cosméticos naturais e orgânicos. Em 2012 fomos visitar a Biofach em Nuremberg, a maior feira de produtos Orgânicos do mundo, onde acontece a Vivaness, espaço dedicado somente a marcas de Cosméticos Naturais e Orgânicos.Foi uma experiência maravilhosa, e eu pude conhecer marcas centenárias como Weleda, Dr Hauchaka, Primavera, e outras jovens como Mádara. Em todas existia uma força genuína de promover beleza com saúde, harmonia e boas relações.

Com essa experiência nos sentimos seguros para fazer as escolhas e dar os próximos passos, até chegar em nosso lançamento que aconteceu em 2016 na Bio Brazil Fair. Foram muitas etapas para criar condições para o projeto se tornar realidade: integrar a cadeia de fornecedores, desenvolver as formulações e estabelecer o processo de fabricação.

Nossos símbolos, marca, identidade buscam expressar toda essa beleza que encontramos nas pessoas, nos lugares, na natureza. Essa é nossa forma de promover a beleza natural e também nossa intenção de gerar saúde e alegria através dos cosméticos que produzimos. Almanati é esse universo de relações – aprendemos a cada dia e aspiramos ser sempre uma empresa consciente e responsável, que preserva e valoriza.

Zezé Ferri Viesi
Fundadora da Almanati